O que cabe na lata do poeta?

O que cabe na lata do poeta?

Público alvo: 8º Ano

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

(Fonte: QUINTANA, Mário.Esconderijos do tempo. Porto Alegre: L&PM,1980.)

Poemas são a mesma coisa que pássaros? Que semelhanças o poeta vê entre pássaros e poemas e que permitem ao poeta dizer Os poemas são pássaros?

Sentido literal e sentido figurado

De maneira geral, usamos as palavras com dois diferentes sentidos: o sentido literal e o sentido figurado.

Sentido literal: Nesse caso, o sentido da palavra é exato, direto, simples, não deixa dúvida. Geralmente, nos textos em que deve predominar uma linguagem clara e objetiva, como os jornalísticos e científicos, as palavras aparecem com um único sentido, aquele que aparece nos dicionários. O sentido literal também é chamado denotativo.

Sentido figurado: Quando o sentido da palavra aparece com um sentido ampliado ou alterado no contexto, sugerindo idéias diferentes do sentido literal, dizemos que a palavra está no sentido figurado. O sentido figurado também é chamado conotativo.

A linguagem do poeta

A linguagem que o poeta usa não é uma linguagem comum. Os poetas não usam as palavras em seu sentido literal, do modo como estão no dicionário. A linguagem do poema Poemas não é comum. Ela expressa o modo particular como o poeta Mário Quintana vê e sente o mundo.

Os poetas se expressam de modo subjetivo. O mesmo não ocorre com os cientistas. Imaginem o que aconteceria se um cientista explicasse uma nova descoberta da medicina em linguagem subjetiva. Cada médico faria uma interpretação diferente da explicação e esta variedade de interpretações poderia causar muitos problemas.
A linguagem comum usada no dia-a-dia não é suficiente para aqueles que trabalham com a palavra. Para um escritor conseguir expressar-se com originalidade, ele precisa criar imagens. Para um poeta não serve qualquer palavra. Ele escolhe aquelas palavras e expressões que melhor traduzam sua visão das coisas. Essa escolha dá muito trabalho. Por esse motivo se diz que o poeta é um artesão da palavra . Olavo Bilac (1865-1918), no poema A um poeta, já dizia que o autor, quando está criando, Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua .

Observe os exemplos:
Para o cientista, a Lua é:
Satélite natural da Terra

Para poetas, a Lua pode ser:
Casa de São Jorge
Fatia de queijo
Colar de prata da Noite

Atividades para praticar a linguagem conotativa
1. Por que motivo um cientista ou um professor usam o sentido literal das palavras ou a linguagem denotativa, quando escrevem um texto para explicar uma teoria?

2. Amplie a lista: Para poetas, a Lua pode ser…

3. Os poetas se expressam de modo subjetivo. O mesmo não ocorre com os cientistas. Selecione poemas e textos científicos. Compare a linguagem de um com a do outro para perceber as diferenças entre esses gêneros textuais.

4. compare o verso de Quintana com uma definição de poema encontrada no dicionário. Comente o efeito de sentido de cada definição:
a) Poemas são pássaros.
b) Poema é obra em versos.
5. Em dupla, elaborem uma definição científica e uma definição poética para coração . Organize um painel com essas definições distribuídas em duas colunas: a coluna Coração para o cientista é… e outra, Coração para o poeta é…

6. Por que um cientista não pode fazer uso de linguagem subjetiva e o poeta pode?


Conversando sobre a linguagem poética

A linguagem subjetiva dá um novo sentido a palavras conhecidas. O novo sentido nasce de uma semelhança percebida pelo autor. Para Quintana, os poemas são como os pássaros. No famoso soneto de Camões, o poeta português enumera várias semelhanças que ele vê para o sentimento do amor:

Amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Linguagem figurada e as figuras de linguagem

A linguagem poética é chamada de figurada porque faz uso de figuras de linguagem. Tais figuras são recursos que os poetas usam para criar efeitos de expressividade, ou seja, para emocionar o leitor. Há vários tipos de figuras. Uma delas é a metáfora.

A metáfora
Essas semelhanças ou relações que o poeta estabelece entre dois elementos, sem usar o termo de comparação como chama-se metáfora e é uma figura de palavra muito usada na poesia. Ela ocorre quando um termo é substituído por outro em função de algum ponto de contato, de alguma semelhança entre eles. Se o primeiro verso do poema de Camões fosse: o calor do amor arde como o calor do fogo , ele estaria fazendo uma comparação. Camões preferiu escrever uma metáfora. No poema de Quintana, se a opção fosse a comparação ficaria assim: Os poemas chegam não se sabe de onde como os pássaros chegam e não se sabe de onde.


Gilberto Gil e a metáfora
O cantor e compositor baiano Gilberto Gil escreveu uma letra para uma canção que é uma explicação poética para metáfora . A canção está gravada nos discos Gil Luminoso (1999) e Um banda um (1982) e é possível escutá-la em http://www.gilbertogil.com.br/sec_discografia_view.php?id=51

Leia a letra da música e, depois:

1. Interprete os seis versos iniciais.
2.Leia:

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Você concorda com os versos?
3. Por que tudonada está escrito como se fosse uma palavra só?

Metáfora (Gilberto Gil)

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: “Lata”
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: “Meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

A lata do poeta

Leve uma lata média ou um balde com alça para a classe.Decore a lata por fora, pintando-a ou recobrindo-a com papel colorido. Ela será a Lata do Poeta, onde tudonada cabe.

Metáfora, literatura e cinema

O filme O carteiro e o poeta (Il postino, 1994), de Michael Radford, narra a história (fictícia) da amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e Mario Ruppuolo. Filme poético sobre os extremos da poesia em que Mario (Massimo Troisi) é um carteiro que, ao fazer amizade com o grande poeta Neruda (então exilado político), vira seu carteiro particular e acredita que ele pode se tornar seu cúmplice para conquistar o coração de uma donzela. Descobre, assim, a poesia que sempre existiu em si. O filme baseia-se no livro Ardiente Paciencia (1985), do escritor chileno Antonio Skarmeta. No Brasil, foi editado pela Record com o título O Carteiro e o Poeta .

Há diálogos maravilhosos entre o poeta e o carteiro no livro e no filme. Um deles é sobre metáfora, que o filme reproduz fielmente:

O carteiro e o poeta

– Metáforas, homem!
– Que são essas coisas?
O poeta colocou a mão sobre o ombro do rapaz.
– Para esclarecer mais ou menos de maneira imprecisa, são modos de dizer uma coisa comparando-a com outra.
– Dê-me um exemplo…
Neruda olhou o relógio e suspirou.
– Bem, quando você diz que o céu está chorando. O que é que você quer dizer com isto?
– Ora, fácil! Que está chovendo, ué!
– Bem, isso é uma metáfora.
– E por que se chama tão complicado, se é uma coisa tão fácil?
– Porque os nomes não têm nada a ver com a simplicidade ou a complexidade das coisas.
(O Carteiro e o Poeta, Antonio Skármeta)
Anexos
Metáforas
Abaixo seguem textos que podem auxiliá-lo no estudo sobre metáfora.

Emprego de uma palavra em sentido diferente do próprio por analogia ou semelhança: Esta cantora é um rouxinol ( a analogia está na maviosidade). (dic. Michaelis)

Tropo que consiste na transferência de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa, e que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado. (Por metáfora, chama-se raposa a uma pessoa astuta, ou se designa a juventude primavera da vida.) (dic. Aurélio)

É a figura de linguagem que consiste na transferência de um termo para um âmbito de significação que não é o seu; ao contrário da metonímia não se fundamenta numa relação objetiva entre a significação própria e a figurada, mas, sim, numa relação toda subjetiva, criada no trabalho mental de apreensão; ex.: o último ouro do sol morre na cerração (Bilac). A metáfora tem uma função expressiva, que é pôr em destaque aspectos que o termo próprio não é capaz de evocar por si mesmo; assim, a última luz do sol não ressaltaria a tonalidade especial da luz solar ao crepúsculo. A metáfora é, por isso, um recurso corrente na linguagem e essencial na poesia. A seu lado, há a comparação assimilativa ou símile, em que se obtém esse destaque pelo cotejo de dois termos; ex.: a luz do sol é como ouro na cerração.
A metáfora é um fato de sincronia e só existe quando o termo tem a significação própria nitidamente distinta da do termo que é substituído. Quando figura sistematicamente numa expressão como idiotismo, perde a força evocativa, porque o termo, em princípio metafórico, está idiomaticamente imposto na expressão (ex.: cabeça de alfinete); tem-se então uma fossilização, e a metáfora só se torna patente em formulações ad hoc (ex.: são idéias de uma cabeça de alfinete). Na diacronia, as metáforas entram na evolução semântica e o termo incorpora a significação, de início metafórica, na significação própria, cuja polissemia – a) aumenta, ou – b) não, conforme a antiga significação própria – a) se mantém, ou – b) se esvai (exs.: a) serra para conjunto de montanhas e para ferramenta ; b) flagelo (cf. lat.flagellum chicote ). – J. Mattoso Camara Jr.

TIGRESA
uma tigresa de unhas negras
e íris cor de mel
uma mulher uma beleza
que me aconteceu
(Tigresa, Caetano Veloso)

O poeta, ao chamar de tigresa a mulher a quem dedica a canção, constrói uma figura de palavra, ou seja, uma figura que consiste na associação entre os elementos mulher e tigresa. Essa associação nos permite uma transferência de significados, a ponto de usarmos tigresa por mulher (que, obviamente, é sensual, insinuante, felina).
A seqüência associativa percorre os seguintes passos:
1o) a mulher é como uma tigresa
2o) a mulher é uma tigresa
3o) uma tigresa
em que de uma comparação inicial se chega à substituição de uma palavra por outra. Temos, assim, uma figura de palavra denominada metáfora.
(José de Nicola e Ulisses Infante)

Qualquer palavra não serve: é preciso encontrar aquela que, não traindo o sentimento a ponto de o destruir, consiga sugeri-lo tão completamente quanto possível. Palavra ambígua, capaz de dizer sem dizer, de sugerir mais que transmitir, em decorrência da natureza polivalente e difusa da vivência interior. Tudo isso, afinal, constitui a metáfora, o símbolo. A poesia é a expressão do eu pela palavra metafórica, vale dizer, permanente substituição, ambigüidade, dar a entender, parecença com; jamais o termo direto, a palavra do sentido único e preciso. (Massaud Moisés)

A existência de similitudes no mundo objetivo, a incapacidade de abstração absoluta, a pobreza relativa do vocabulário disponível em contraste com a riqueza e a numerosidade das idéias a transmitir e, ainda, o prazer estético da caracterização pitoresca constituem as motivações da metáfora.

Em síntese – didática -, pode-se definir a metáfora como a figura de significação (tropo) que consiste em dizer que uma coisa (A) é outra (B), em virtude de qualquer semelhança percebida pelo espírito entre um traço característico de A e o atributo predominante, atributo por excelência, de B, feita a exclusão de outros, secundários por não convenientes à caracterização do termo próprio A . Ora, a experiência e o espírito de observação nos ensinam que os objetos, seres, coisas presentes na natureza – fonte primacial das nossas impressões – impõem-se-nos aos sentidos por certos traços distintivos. A pedra preciosa esmeralda tem como atributo predominante a sua cor verde, de brilho muito particular. Então, uns olhos com essa mesma tonalidade podem levar a uma associação por semelhança, da qual resulta a metáfora: seus olhos (A) são duas esmeraldas (B).
Do ponto de vista puramente formal, a metáfora é, em essência, uma comparação implícita, isto é, destituída de partículas conectivas comparativas (como, tal qual, tal como) ou não estruturada numa frase cujo verbo seja parecer, semelhar, assemelhar-se, sugerir, dar a impressão de ou um equivalente desses. Assim, seus olhos são como (parecem, assemelham-se a, dão a impressão de) duas esmeraldas é uma comparação ou símile.

Analogia e comparação
A analogia é uma semelhança parcial que sugere uma semelhança oculta, mais completa. Na comparação, as semelhanças são reais, sensíveis, expressas numa forma verbal própria, em que entram normalmente os chamados conectivos de comparação ( como, quanto, do que, tal qual), substituídos, às vezes, por expressões equivalentes (certos verbos como parecer , lembrar , dar uma idéia , assemelhar-se : Esta casa parece um forno, de tão quente que é. ). Na analogia, as semelhanças são apenas imaginárias. Por meio dela, se tenta explicar o desconhecido pelo conhecido, o que nos é estranho pelo que nos é familiar; por isso, tem grande valor didático. Sua estrutura gramatical inclui com freqüência expressões próprias da comparação (como, tal, semelhante a, parecido com, etc. Para dar à criança uma idéia do que é o Sol como fonte de calor, observe-se o processo analógico adotado pelo Autor do seguinte trecho:

O Sol é muitíssimo maior do que a Terra, e está ainda tão quente que é como uma enorme bola incandescente, que inunda o espaço em torno com luz e calor.
Sol tão quente, que é como uma enorme bola incandescente é, quanto à forma, uma comparação, mas, em essência é uma analogia: tenta-se explicar o desconhecido (Sol) pelo conhecido (bola incandescente), sendo a semelhança apenas parcial (há outras, enormes, diferenças entre o Sol e uma bola de fogo). (Othon M. Garcia)

Adendos
Quando for ensinar linguagem poética:
– Selecione poemas não só pela temática, mas, sobretudo, pela sonoridade e/ou metáforas.
– Proponha sempre a leitura de poemas em voz alta para a percepção auditiva da sonoridade e ritmo dos versos.
– Compare a objetividade da linguagem científica com a subjetividade da linguagem da poesia. A poesia é expressão da subjetividade do poeta. Caracteriza-se, portanto, pela linguagem criativa e metafórica. Seu estudo não pode ser reduzido apenas ao estudo de rimas, versos e estrofes. É preciso ir além disso, explorando os recursos que dão efeito sonoro, como a aliteração e a assonância, e o sentido conotativo e o caráter polissêmico das palavras.
– Mostre que o trabalho do poeta é árduo e que a linguagem poética tem um caráter subversivo, como nos casos em que há desobediência às normas da língua.

Uma resposta para O que cabe na lata do poeta?

  1. Aldejane de Lima Saaba disse:

    os textos sao muito bons
    a maneira como há a comparação entre eles é bem mais fácil de compreender! simplesmente otimo!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: